Especialistas da Metsul Meteorologia falam sobre a possibilidade de chuva excessiva com a chegada do El Niño

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O outono, que começa às 11h45 desta sexta-feira deve marcar a chegada do El Niño. Com o retorno do El Niño, e o episódio de 2026-2027 pode ser novamente forte como o de 2023-204, cresce dramaticamente o risco de chuva excessiva com enchentes no Rio Grande do Sul.

O El Niño, no entanto, não se instalará no início deste outono. O aquecimento será gradual e sua caracterização se dará na segunda metade da estação, em maio ou junho. O fenômeno se intensificará no segundo semestre e deve atingir o seu pico nos meses de novembro ou dezembro, persistindo ainda nos primeiros meses de 2027. Historicamente, sob El Niño, o período mais crítico para enchentes se concentra no segundo semestre do ano de instalação do fenômeno e no primeiro do ano seguinte, ou seja, o risco será maior na segunda metade de 2026 e na primeira de 2027, sobretudo na primavera de 2026 e no outono de 2027.

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Foi exatamente o que ocorreu em 2023, ano que marcou o começo do último episódio de El Niño. A primeira enchente se deu com ciclone na costa do Litoral Norte em junho, mas as piores cheias aconteceram em setembro e novembro daquele ano. Na sequência, o grande desastre do fim de abril e maio de 2024. Uma vez que o El Niño em 2026 vai começar mais cedo e terá forte intensidade, não se pode afastar que já no fim do outono, como em 2023, haja enchentes. O perigo maior, contudo, será nos meses seguintes, especialmente no fim do inverno e na primavera.

O risco prosseguirá no verão de 2027, que pode ter episódios de chuva extrema e até cheias fora do período tradicional das estações de transição, e aumentará no outono de 2027, sendo que o outono do ano seguinte ao começo do El Niño é particularmente de alto risco, como se viu em 1941 e em 2024.

E há risco de uma repetição da grande enchente de 2024? Esta é a resposta que não temos e ninguém pode ter. Nenhum episódio de El Niño é igual ao outro. Eventos de El Niño muito fortes na história recente, como 1982-1983, 1997-1998 e 2015-16, foram responsáveis por grandes enchentes, mas nada comparado ao que se viu em 2024. Além disso, como cada El Niño tem sua história e é diferente dos outros, no passado os eventos muito fortes tiveram os piores impactos de forma distinta.

Em 1982-1983, Santa Catarina sofreu mais com a chuva do El Niño. Em 1997-1998, particularmente o Oeste do Rio Grande do Sul foi mais afetado. Em 2023-2024, o Rio Grande do Sul quase todo foi duramente afetado. Além de cada El Niño se manifestar de forma diferente em seus efeitos, em 2024 atuavam outros vários fatores concomitantes ao El Niño e que foram responsáveis por criar o cenário climático que levou à catástrofe e que não necessariamente podem se reunir novamente.

Quando da enchente de 2024, havia simultaneamente um aquecimento extraordinário e sem precedentes do Atlântico Tropical, o que injetou quantidade imensa de vapor na atmosfera. Havia dois bloqueios atmosféricos, um sobre o Brasil Central e outro sobre a América Central, que canalizou o excesso de umidade dos trópicos para o Sul do Brasil. O Rio Grande do Sul, além disso, estava entre uma enorme massa de ar muito quente sobre o Brasil e uma grande e poderosa massa de ar frio sobre a Argentina, que deixou temperaturas em maio daquele ano extremamente baixas na Patagônia, que teve um dos meses de maio mais frios da história.

Não bastasse, a atmosfera em escala global ainda sofria os efeitos de injeção massiva de vapor na estratosfera pela erupção do vulcão Honga-Tonga, o que colaborou para piorar o superaquecimento do planeta causado pela soma de El Niño e mudanças climáticas. E, na Antártida, o chamado Modo Anular Sul ou a Oscilação Antártica (AAO) se encontrava consistentemente em fase negativa no outono de 2024, o que tornou a circulação atmosférica no Hemisfério Sul muito propícia para aumento da chuva no Sul do Brasil. Assim, o que é possível prever? Que é altíssimo o risco de enchentes nos próximos meses, inclusive algumas mais graves, afetando os estados da Região Sul, inclusive o Rio Grande do Sul. O que não se pode prever? Que haverá enchente com desastre igual ou pior que 2024 porque há uma dependência de vários fatores intrasazonais que não se pode prognosticar exceto em mais curto prazo. Moral da história? O El Niño foi o grande vilão em 2024, mas havia vários outros juntos e concomitância de todos eles foi excepcional e rara.

Fonte: https://metsul.com/volta-do-el-nino-traz-cenario-semelhante-ao-desastre-da-enchente-de-2024/ .

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